Feeds:
Posts
Comments

Sonata fúnebre

I. Adagio

As coisas já não eram mais como antes. Eles não eram mais os mesmos; o ambiente não era mais o mesmo. Talvez o amor também não fosse mais o mesmo.

Cada um dos dois queria que o outro fosse diferente. Esse era o ponto.

E parecia que as ações deles já não surtiam mais aquele efeito de antes. E isso causava um desconforto; uma agonia tão forte que nele já beirava o desespero.

Pensava que ela já estava tão habituada a ele, tão segura de que ele era seu, que agia com indiferença. Ele precisava de algo extremo, na tentativa de trazer de volta o que outrora lhes pertenceu.


II. Allegro, ma non troppo

E então ele decidiu. Decidiu que era necessário a ela perceber novamente que precisava dele. E ele a deixou. Assim, simplesmente. Seu intuito, claro, era o de que a ausência despertasse novamente a ânsia, o desejo, a paixão — a falta. E, depois disso, ela voltaria para ele, arrependendo-se de todos os erros, aceitando todos os defeitos e amando-o com todas as forças e de todas as formas. Ele queria lhe mostrar o quanto ele era importante na vida dela. E o longo período de desentendimentos, de ofensas e de decepções mútuas fez com que ele tivesse forças para sustentar sua decisão até o final. Obviamente, o medo era grande; mas aquilo era realmente necessário.


III. Grave e finale

O tempo passou, e ele agora encara os resultados de sua escolha. Vê-la com outro, tão feliz, tão leve, tão despreocupada, corrobora o que ele por vezes colocava — com fins um tanto dramáticos, deve-se admitir — como sua suspeita para a causa daquela antiga crise e que era, ao mesmo tempo, o seu maior temor: o de que ele, no fim das contas, realmente não tinha importância alguma.

O valor das palavras

Na maioria dos casos, o grau de amizade é medido pela capacidade, ou paciência — como preferir —, que o outro tem de ouvir o que a pessoa tem a dizer.

Ora, conversas informais são coisas que se pode ter com pessoas quaisquer; cruciais mesmo são as conversas dos momentos de crise.

Mas esses momentos não exigem diálogos bilaterais: uma simples exposição da situação, acompanhada de uma explicação dos sentimentos pessoais, é suficiente.

E não, isso definitivamente não tem a ver com conselhos. Você não será classificado como um bom amigo por dar conselhos proveitosos à pessoa em questão. Até porque “proveitoso” nem é um adjetivo cabível nesse contexto.

Afinal, um indivíduo em plena crise existencial não é tão dono de si assim que possa se controlar e pôr em prática as instruções de seu interlocutor, não acha?

Não, meu caro. Tudo o que você tem a fazer é ouvir. Não dê conselhos, não passe a mão no cabelo, ombros ou costas da pessoa, não diga que tudo ficará bem — aliás, essa é uma das mais odiadas por esses sujeitos —, nada. Nada disso terá valor algum quando você for avaliado.

Apenas tenha paciência e ouça. Calado, de preferência.

Ou então treine para ser uma pessoa legal, falando de coisas fúteis com qualquer um, por aí. (O espelho do banheiro ajuda bastante nesse aspecto.)

Mas os seus conselhos… bem, estes não servem nem para o seu amigo em crise, nem para os quaisquer do bar que você freqüenta.

Estes você guarda para você mesmo.

(Ou então crie um blog.)

Estava em um pequeno quarto de pensão, escrevendo algumas notas em minha caderneta. Eram idéias para o meu livro de poesias. Da janela, bem ao lado da escrivaninha, podia ver as pessoas caminhando com suas roupas escuras pelo centro de Colchester. Não me pergunte como exatamente fui parar lá, mas o fato é que, na noite anterior, após algumas doses excedentes de whisky, preferi procurar um quarto para alugar a tentar voltar sozinho para casa. Era uma janela pequena, mas suficiente — principalmente levando-se em conta o tamanho do aposento.

A sra. Reynolds, dona da pensão, era uma pessoa que falava apenas o estritamente necessário, sem contudo demonstrar arrogância. Acredito que fora esse o motivo pelo qual gostei de me hospedar ali. Não me sinto bem quando estranhos perguntam sobre a minha vida. Bem, talvez quase todas as pessoas sejam assim, mas não importa. O fato é que ela era uma velhinha séria e reservada — características que prezo muito mais do que excessos de simpatia gratuitos.

Preparara um café no pequeno fogão daquele quarto, que ficava ao lado da porta do banheiro, e agora tomava aquela bebida levemente amarga, para esquentar o corpo e — principalmente — sentir que limpava do meu corpo o malte escocês da noite anterior. Não estava com fome, nem podia ver o sol naquele dia nublado, mas algo me dizia que já devia estar próximo do meio-dia. Decidi que ficaria até as duas horas, quando procuraria algum lugar para comer e me dirigiria à estação de trem.

Sentei-me novamente à escrivaninha, segurando minha xícara e pegando a caneta para fazer novas anotações. Ouvi o sino da igreja. Sorri para ninguém, quando percebi que minha intuição estava certa. Meu sorriso, entretanto, foi rapidamente substituído por uma expressão séria e profunda, tão logo fui acometido por um estranho pensamento. Virei a página de minha caderneta, pois precisava de uma folha totalmente nova para receber o que estava por vir.

Pensei em um sino que badalava infinitamente; que soava desde sempre. E percebi, então, que, se aquele sino que eu agora ouvia fosse assim, não seria possível que eu, ou qualquer outro, estivesse ali, naquele momento, ouvindo-o. Pois isso exigiria que já tivessem sido dadas infinitas badaladas, e eu desde pequeno entendia que nenhuma medida infinita podia ser percorrida — nem mesmo pelo sino da minha imaginação.

Tudo isso aconteceu em um instante. Tão rápido que, quando terminou, ainda podia ouvir o sino da igreja. Até que, em meio às badaladas, escutei um barulho diferente. E foi necessário que aquela batida se repetisse, segundos depois, para que eu pudesse descobrir do que se tratava. Olhei para a janela, e lá estava um pássaro que batia com seu bico no vidro. Eu poderia até pensar que ele queria algo comigo, não fosse o fato de ele ter voado assim que inclinei o pescoço para vê-lo melhor.

Dirigi-me à janela e a abri. Inclinei-me para fora, na esperança de que pudesse ver para onde o pássaro havia ido — ou, ao menos, acompanhá-lo visualmente por sua trajetória pelo céu. Mas nem sinal dele.

* * *

Juntei minhas coisas e saí da pensão. A sra. Reynolds me indicou um restaurante, após receber o dinheiro. Não gosto muito de peixes — mas não considerei ser realmente necessário que ela soubesse disso.

Vida

A areia que desce lentamente já não tem nenhuma importância, quando o único desejo que se tem é o de virar a ampulheta mais uma vez.

Ingratidão

Liguei a TV porque não queria o silêncio. Às vezes, não me sinto bem com ele. Algumas, apenas.

E esta era uma das vezes nas quais precisava ouvir algo além do sangue correndo pela minha cabeça. Gosto de saber que estou vivo, mas algumas coisas me assustam. Como esse som de sangue correndo, ou como quando sinto meu coração batendo dentro do peito. Meus batimentos cardíacos me amedrontam. Quem sabe seja por isso que, sempre que os ouço, eles disparam.

Talvez por se tratar de algo tão frágil, que, se resolver parar, me levará tudo o que eu tenho. Um simples batimento cardíaco me mantém sendo o que sou, e isso é aterrorizante. Sentir que ele pulsa é perceber que ele pode não mais pulsar. E não sou eu que lhe ordeno que pulse. Ele pulsa porque quer. Então ele pode parar, se também quiser. Prefiro me esquecer dele, agora.

Estava com fome. E comi, enquanto ouvia o som de algum filme qualquer que passava naquela madrugada, sem prestar atenção. Apenas para me distrair dos sons. Do sangue, da mastigação — de mim.

Então pensei em escrever. Já sabendo que você, que agora lê, esperaria por algum final marcante. Mas eu agora simplesmente escrevo. Algo que não diz nada que irá mudar a sua vida.

E você se frustra, porque esperava que eu o fizesse. Que eu melhorasse a sua vida. Eu.

Afinal, nada mais justo, uma vez que você empreendeu uma quantia considerável do seu esforço pessoal nesta leitura, não é mesmo?

Algumas pessoas são ingratas, aceite.

E agora eu peço desculpas nada sinceras, para que você se sinta melhor com o fato de que eu não dou a mínima.

Insatisfação

A frustração mais comum — e que perpassa toda a vida de muitos — é aquela causada não por não se ter alcançado determinado objetivo, mas em razão de tal objetivo original ter sido, sem que se percebesse, gradualmente esquecido ao longo do caminho.

Medo

Os anos haviam passado. Seus rostos já não eram mais os mesmos. As idéias talvez também não. Mas o que dizer dos sentimentos?

Peter e Sarah se reencontraram. E, mesmo com todas as mudanças trazidas pelo tempo, ainda podiam ver um nos olhos do outro aquela pessoa por quem se apaixonaram quase quinze anos atrás. Mas nenhum deles deixava isso transparecer.

Ele voltara do Marrocos, onde vivera seus últimos onze anos. Durante muito tempo, ela ficara sem notícias suas.

Ela ainda vivia na mesma casa. A mesma casa, na mesma velha e estreita rua daquele tranqüilo bairro de Brighton, próxima ao mar. Não fora difícil para ele achá-la.

Peter chegara de surpresa. Aliás, sempre fora o tipo de pessoa que faz tudo sem muitos planos. Assim como quando resolvera morar no Marrocos. Ou quando fora para o Canadá, quatro anos antes, e deixara Sarah, sem muitas explicações.

Durante os anos dele no Canadá, os dois se comunicavam por carta com uma freqüência razoável. Até que um dia Sarah não mais recebeu notícias de Peter. Foram os sete meses mais difíceis da vida dela.

Um dia, então, quando suas esperanças já estavam esquecidas, recebeu uma carta de Peter, agora com outro endereço, dizendo que se mudara para a África, pois estava há tempo em más condições no Canadá e conseguira agora investir em um negócio muito promissor no Marrocos. Sarah acharia aquela mudança estranha, se não tivesse vindo de Peter. Apesar de tudo, ela podia dizer que o conhecia.

Mas mesmo agora, que a vida de Peter estava melhor, com seu negócio promissor no Marrocos, suas cartas eram cada vez mais raras. Sarah muitas vezes já nem as respondia, por sentir como se aquilo não tivesse muita importância para Peter.

Ela agora já mostrava alguns cabelos brancos. Mas o encanto de seus olhos, definitivamente, não se perdera. E esse era o motivo pelo qual Peter a olhava tão profundamente. Como se, durante esses anos, tivesse se esquecido dos olhos de Sarah, e agora lembrasse, instantaneamente, da paixão que sentira quando ainda eram quase vizinhos e caminhavam todos os fins de tarde pela orla de Brighton, devagar, com os pés descalços, até que o sol desse lugar às mais brilhantes estrelas. Ambos com os pés naquela fria água. Peter, com as calças arregaçadas até os joelhos e segurando seus sapatos; Sarah, molhando a barra do seu vestido branco. Estavam ali, diante do mar. Ali eles haviam descoberto o que é a felicidade.

Sarah olhava para Peter, que não conseguia esconder totalmente sua empolgação em vê-la novamente. Mas ela mantinha certa seriedade em seu semblante, certamente em razão de ainda não entender o real motivo que levara Peter a deixá-la naquele outono de 1973. E, por prezar tanto sua dignidade, limitou-se a não perguntar nada sobre aquilo.

Peter falava sobre sua vida durante esses quase quinze anos, e Sarah mantinha-se atenta, por vezes esforçando-se para dar-lhe um sorriso, fingindo que estava satisfeita. Fingindo que era aquilo que ela queria ouvir.

Mas o que ela queria era que Peter pedisse desculpas, assumisse sua infantilidade em largar tudo, inclusive ela, quinze anos atrás, e dissesse que seu amor em nada mudara durante aqueles anos separados. Mas Peter falava sobre o Marrocos, sobre seus sócios, sobre o clima árido e sobre como foi bem sucedido vivendo onze anos na África.

O tempo estava passando. E Sarah sentia isso. Aquele momento era único: era a chance que ela e Peter tinham de esclarecer tudo e de falar que seu amor não morrera; que tudo era superável, e que eles poderiam voltar à vida que tinham antes de Peter partir.

Mas Peter, talvez por medo desse momento, continuava falando do Marrocos. E Sarah, por seu orgulho artificial, mantinha-se ouvindo. Agiam como se esperassem por algo externo a eles que fizesse o trabalho que cabia unicamente aos dois: falar sobre o amor que ainda estava dentro deles.

E eles esperaram. Esperaram até que o momento se foi. Ali, os dois sentiram que deveriam ter agido conforme mandavam seus ímpetos. E se arrependeram.

O momento se fora. Agora Peter devia ir também. E ele nunca mais teria coragem de voltar à casa de Sarah.

Peter e Sarah jamais teriam um ao outro novamente. Tudo o que lhes restava, agora, eram as lembranças da água do mar em seus pés, fria, contrastando com o calor de seus corações, sob o sol poente daquele outonal litoral inglês.

Veneno

Até ontem sabias viver sem isso.

Hoje julgas ser o mundo o responsável por tal dependência.

Mas quem a criou e impôs a ti não foi ninguém além de ti mesmo.


Tu és o único responsável pelos teus vícios e necessidades.

Tu escolhes aquilo de que precisas para viver.

É uma escolha, apenas. Apenas uma escolha.


Viver ou morrer por algo é uma decisão pessoal.

Que, por mais que te convenças do contrário, pode ser alterada.

Então, por favor, não culpa o mundo.


Hás de perceber que tens o poder de mudar tudo isso.

De não mais morrer pelo que hoje perdeste.

Pois é tu, somente tu, que escolhes o que te mata.

Vazio

Sentes saudades,

mas não sabes bem do quê.


Pois eu te digo: sentes saudades

de sentir.

Excerto

[...]

Tu disseste pensar que as coisas que fazes, ou os sonhos que tens, poderiam ser os errados. Bem, essa dúvida ocorre sempre e a todas as pessoas. Mas o que de fato define o que é certo ou errado? Posso estar muito equivocado, mas eu acredito que, mesmo quando fazemos algo de que possamos nos arrepender um dia, isso não é somente uma perda. Afinal, decisões erradas são o que realmente nos ensinam a viver. O que tu aprendes com as decisões corretas que fazes durante tua vida? A fazê-las novamente? E novamente, e novamente, até o último dos teus dias?

Nós perdemos muitos dias de nossas vidas sentindo medo de tomar decisões ruins, de fazer coisas erradas. Mas essa escolha — e isso é de fato uma escolha — de sentir medo é, na verdade, a pior decisão que podemos tomar.

Por isso, só tenho uma coisa a te dizer: vive teus dilemas, aproveita-os. Eles são o que realmente faz com que te sintas viva.

[...]

Older Posts »