Não há problema em não saber o que você quer. Apenas lembre-se de que não é destruindo o mundo que você vai descobrir.
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A hora chegou.
Agora é o momento de ir. Achar um novo caminho.
É hora de aprender aquilo que eu já sei, mas que ainda não pude aprender de verdade.
É hora de encontrar aquela pessoa que eu já não vejo há muito tempo. Tanto tempo que eu já nem lembro mais direito do seu rosto.
Espero que eu ainda a reconheça.
Espero não ter me perdido para sempre.
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Agora.
Que todos os teus heróis,
um por um, foram derrotados.
Que todos os teus sonhos
se transformaram em pó.
Que todos os teus medos
encarnaram diante de ti.
Agora que nenhum consolo
encontra-se ao teu alcance.
Que nenhum refúgio
é visível aos teus olhos.
Nada.
Sequer um resquício de luz
perpassa tua escuridão.
Agora que estás aqui, morto,
encaras-te a ti mesmo.
Nu, inerte, vês em teu corpo
cada mancha e cada cicatriz.
E tua imagem pálida, gélida,
é agora mais clara do que nunca.
Agora, tua única dor é o arrependimento.
Pois vês agora que foi ver-te só agora
o que te trouxe agora até aqui.
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Nem um frustrado eu consigo ser direito.
Sou um frustrado frustrado.
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Pessoas à minha volta morreram.
E o fedor é cada dia pior.
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I. Adagio
As coisas já não eram mais como antes. Eles não eram mais os mesmos; o ambiente não era mais o mesmo. Talvez o amor também não fosse mais o mesmo.
Cada um dos dois queria que o outro fosse diferente. Esse era o ponto.
E parecia que as ações deles já não surtiam mais aquele efeito de antes. E isso causava um desconforto; uma agonia tão forte que nele já beirava o desespero.
Pensava que ela já estava tão habituada a ele, tão segura de que ele era seu, que agia com indiferença. Ele precisava de algo extremo, na tentativa de trazer de volta o que outrora lhes pertenceu.
II. Allegro, ma non troppo
E então ele decidiu. Decidiu que era necessário a ela perceber novamente que precisava dele. E ele a deixou. Assim, simplesmente. Seu intuito, claro, era o de que a ausência despertasse novamente a ânsia, o desejo, a paixão — a falta. E, depois disso, ela voltaria para ele, arrependendo-se de todos os erros, aceitando todos os defeitos e amando-o com todas as forças e de todas as formas. Ele queria lhe mostrar o quanto ele era importante na vida dela. E o longo período de desentendimentos, de ofensas e de decepções mútuas fez com que ele tivesse forças para sustentar sua decisão até o final. Obviamente, o medo era grande; mas aquilo era realmente necessário.
III. Grave e finale
O tempo passou, e ele agora encara os resultados de sua escolha. Vê-la com outro, tão feliz, tão leve, tão despreocupada, corrobora o que ele por vezes colocava — com fins um tanto dramáticos, deve-se admitir — como sua suspeita para a causa daquela antiga crise e que era, ao mesmo tempo, o seu maior temor: o de que ele, no fim das contas, realmente não tinha importância alguma.
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Estava em um pequeno quarto de pensão, escrevendo algumas notas em minha caderneta. Eram idéias para o meu livro de poesias. Da janela, bem ao lado da escrivaninha, podia ver as pessoas caminhando com suas roupas escuras pelo centro de Colchester. Não me pergunte como exatamente fui parar lá, mas o fato é que, na noite anterior, após algumas doses excedentes de whisky, preferi procurar um quarto para alugar a tentar voltar sozinho para casa. Era uma janela pequena, mas suficiente — principalmente levando-se em conta o tamanho do aposento.
A sra. Reynolds, dona da pensão, era uma pessoa que falava apenas o estritamente necessário, sem contudo demonstrar arrogância. Acredito que fora esse o motivo pelo qual gostei de me hospedar ali. Não me sinto bem quando estranhos perguntam sobre a minha vida. Bem, talvez quase todas as pessoas sejam assim, mas não importa. O fato é que ela era uma velhinha séria e reservada — características que prezo muito mais do que excessos de simpatia gratuitos.
Preparara um café no pequeno fogão daquele quarto, que ficava ao lado da porta do banheiro, e agora tomava aquela bebida levemente amarga, para esquentar o corpo e — principalmente — sentir que limpava do meu corpo o malte escocês da noite anterior. Não estava com fome, nem podia ver o sol naquele dia nublado, mas algo me dizia que já devia estar próximo do meio-dia. Decidi que ficaria até as duas horas, quando procuraria algum lugar para comer e me dirigiria à estação de trem.
Sentei-me novamente à escrivaninha, segurando minha xícara e pegando a caneta para fazer novas anotações. Ouvi o sino da igreja. Sorri para ninguém, quando percebi que minha intuição estava certa. Meu sorriso, entretanto, foi rapidamente substituído por uma expressão séria e profunda, tão logo fui acometido por um estranho pensamento. Virei a página de minha caderneta, pois precisava de uma folha totalmente nova para receber o que estava por vir.
Pensei em um sino que badalava infinitamente; que soava desde sempre. E percebi, então, que, se aquele sino que eu agora ouvia fosse assim, não seria possível que eu, ou qualquer outro, estivesse ali, naquele momento, ouvindo-o. Pois isso exigiria que já tivessem sido dadas infinitas badaladas, e eu desde pequeno entendia que nenhuma medida infinita podia ser percorrida — nem mesmo pelo sino da minha imaginação.
Tudo isso aconteceu em um instante. Tão rápido que, quando terminou, ainda podia ouvir o sino da igreja. Até que, em meio às badaladas, escutei um barulho diferente. E foi necessário que aquela batida se repetisse, segundos depois, para que eu pudesse descobrir do que se tratava. Olhei para a janela, e lá estava um pássaro que batia com seu bico no vidro. Eu poderia até pensar que ele queria algo comigo, não fosse o fato de ele ter voado assim que inclinei o pescoço para vê-lo melhor.
Dirigi-me à janela e a abri. Inclinei-me para fora, na esperança de que pudesse ver para onde o pássaro havia ido — ou, ao menos, acompanhá-lo visualmente por sua trajetória pelo céu. Mas nem sinal dele.
* * *
Juntei minhas coisas e saí da pensão. A sra. Reynolds me indicou um restaurante, após receber o dinheiro. Não gosto muito de peixes — mas não considerei ser realmente necessário que ela soubesse disso.
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A areia que desce lentamente já não tem nenhuma importância, quando o único desejo que se tem é o de virar a ampulheta mais uma vez.
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Liguei a TV porque não queria o silêncio. Às vezes, não me sinto bem com ele. Algumas, apenas.
E esta era uma das vezes nas quais precisava ouvir algo além do sangue correndo pela minha cabeça. Gosto de saber que estou vivo, mas algumas coisas me assustam. Como esse som de sangue correndo, ou como quando sinto meu coração batendo dentro do peito. Meus batimentos cardíacos me amedrontam. Quem sabe seja por isso que, sempre que os ouço, eles disparam.
Talvez por se tratar de algo tão frágil, que, se resolver parar, me levará tudo o que eu tenho. Um simples batimento cardíaco me mantém sendo o que sou, e isso é aterrorizante. Sentir que ele pulsa é perceber que ele pode não mais pulsar. E não sou eu que lhe ordeno que pulse. Ele pulsa porque quer. Então ele pode parar, se também quiser. Prefiro me esquecer dele, agora.
Estava com fome. E comi, enquanto ouvia o som de algum filme qualquer que passava naquela madrugada, sem prestar atenção. Apenas para me distrair dos sons. Do sangue, da mastigação — de mim.
Então pensei em escrever. Já sabendo que você, que agora lê, esperaria por algum final marcante. Mas eu agora simplesmente escrevo. Algo que não diz nada que irá mudar a sua vida.
E você se frustra, porque esperava que eu o fizesse. Que eu melhorasse a sua vida. Eu.
Afinal, nada mais justo, uma vez que você empreendeu uma quantia considerável do seu esforço pessoal nesta leitura, não é mesmo?
Algumas pessoas são ingratas, aceite.
E agora eu peço desculpas nada sinceras, para que você se sinta melhor com o fato de que eu não dou a mínima.
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A frustração mais comum — e que perpassa toda a vida de muitos — é aquela causada não por não se ter alcançado determinado objetivo, mas em razão de tal objetivo original ter sido, sem que se percebesse, gradualmente esquecido ao longo do caminho.
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