Os anos haviam passado. Seus rostos já não eram mais os mesmos. As idéias talvez também não. Mas o que dizer dos sentimentos?
Peter e Sarah se reencontraram. E, mesmo com todas as mudanças trazidas pelo tempo, ainda podiam ver um nos olhos do outro aquela pessoa por quem se apaixonaram quase quinze anos atrás. Mas nenhum deles deixava isso transparecer.
Ele voltara do Marrocos, onde vivera seus últimos onze anos. Durante muito tempo, ela ficara sem notícias suas.
Ela ainda vivia na mesma casa. A mesma casa, na mesma velha e estreita rua daquele tranqüilo bairro de Brighton, próxima ao mar. Não fora difícil para ele achá-la.
Peter chegara de surpresa. Aliás, sempre fora o tipo de pessoa que faz tudo sem muitos planos. Assim como quando resolvera morar no Marrocos. Ou quando fora para o Canadá, quatro anos antes, e deixara Sarah, sem muitas explicações.
Durante os anos dele no Canadá, os dois se comunicavam por carta com uma freqüência razoável. Até que um dia Sarah não mais recebeu notícias de Peter. Foram os sete meses mais difíceis da vida dela.
Um dia, então, quando suas esperanças já estavam esquecidas, recebeu uma carta de Peter, agora com outro endereço, dizendo que se mudara para a África, pois estava há tempo em más condições no Canadá e conseguira agora investir em um negócio muito promissor no Marrocos. Sarah acharia aquela mudança estranha, se não tivesse vindo de Peter. Apesar de tudo, ela podia dizer que o conhecia.
Mas mesmo agora, que a vida de Peter estava melhor, com seu negócio promissor no Marrocos, suas cartas eram cada vez mais raras. Sarah muitas vezes já nem as respondia, por sentir como se aquilo não tivesse muita importância para Peter.
Ela agora já mostrava alguns cabelos brancos. Mas o encanto de seus olhos, definitivamente, não se perdera. E esse era o motivo pelo qual Peter a olhava tão profundamente. Como se, durante esses anos, tivesse se esquecido dos olhos de Sarah, e agora lembrasse, instantaneamente, da paixão que sentira quando ainda eram quase vizinhos e caminhavam todos os fins de tarde pela orla de Brighton, devagar, com os pés descalços, até que o sol desse lugar às mais brilhantes estrelas. Ambos com os pés naquela fria água. Peter, com as calças arregaçadas até os joelhos e segurando seus sapatos; Sarah, molhando a barra do seu vestido branco. Estavam ali, diante do mar. Ali eles haviam descoberto o que é a felicidade.
Sarah olhava para Peter, que não conseguia esconder totalmente sua empolgação em vê-la novamente. Mas ela mantinha certa seriedade em seu semblante, certamente em razão de ainda não entender o real motivo que levara Peter a deixá-la naquele outono de 1973. E, por prezar tanto sua dignidade, limitou-se a não perguntar nada sobre aquilo.
Peter falava sobre sua vida durante esses quase quinze anos, e Sarah mantinha-se atenta, por vezes esforçando-se para dar-lhe um sorriso, fingindo que estava satisfeita. Fingindo que era aquilo que ela queria ouvir.
Mas o que ela queria era que Peter pedisse desculpas, assumisse sua infantilidade em largar tudo, inclusive ela, quinze anos atrás, e dissesse que seu amor em nada mudara durante aqueles anos separados. Mas Peter falava sobre o Marrocos, sobre seus sócios, sobre o clima árido e sobre como foi bem sucedido vivendo onze anos na África.
O tempo estava passando. E Sarah sentia isso. Aquele momento era único: era a chance que ela e Peter tinham de esclarecer tudo e de falar que seu amor não morrera; que tudo era superável, e que eles poderiam voltar à vida que tinham antes de Peter partir.
Mas Peter, talvez por medo desse momento, continuava falando do Marrocos. E Sarah, por seu orgulho artificial, mantinha-se ouvindo. Agiam como se esperassem por algo externo a eles que fizesse o trabalho que cabia unicamente aos dois: falar sobre o amor que ainda estava dentro deles.
E eles esperaram. Esperaram até que o momento se foi. Ali, os dois sentiram que deveriam ter agido conforme mandavam seus ímpetos. E se arrependeram.
O momento se fora. Agora Peter devia ir também. E ele nunca mais teria coragem de voltar à casa de Sarah.
Peter e Sarah jamais teriam um ao outro novamente. Tudo o que lhes restava, agora, eram as lembranças da água do mar em seus pés, fria, contrastando com o calor de seus corações, sob o sol poente daquele outonal litoral inglês.